sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Pedofilia é uma praga social

É um crime que tem resistido às mais variadas formas de repressão. Porque isso? Vamos ilustrar com um simples caso. Eu esperava ser atendida em certa lanchonete e ouvi a frase, em tom jocoso, de um atendente para outro, sobre um terceiro também presente na cena: “Ele pegou uma menina de 12 anos...” Como a situação era inequívoca e eu me indignava, falei em voz alta: “Pedofilia é crime”. Então um dos rapazes, ainda em tom de brincadeira, retorquiu: “Crime é não pegar...”.
Não falarei da minha reação de quase violência verbal, mas das reflexões que este caso me suscitou e que desejo passar adiante. O abuso sexual de menores é uma praga que ronda os PSFs e demais serviços de saúde de tal forma que os conselhos tutelares não têm dado conta. Isto sem falar nos casos encobertos ou socialmente aceitos de forma “naturalizada” como acontece principalmente com relação ao abuso de meninas muito pobres, que exibam comportamento sedutor, ou não, e (ou) gozem mais liberdade, consentida ou não pelos pais. O que se esconde por detrás da pedofilia, além dos problemas psíquicos pouco abordados como a impotência, a imaturidade sexual, o machismo e a drogadição? Ou, mais precisamente, o que se esconde por trás desta tolerância sexual demonstrada pela nossa comunidade masculina (e também feminina)? Uma grande covardia e baixa masculinidade, com certeza. Mas também uma coisificação do outro humano. Covardia porque se busca seduzir, assediar, alguém que não tem capacidade de julgar o outro como parceiro sexual, não tem capacidade para escolher, e que é irresponsável perante a lei e a sociedade (em menor o assédio sexual é sempre considerado violento e igual a estupro, não importando a reação da criança, se houve consentimento ou não). É covardia justificada na maioria das vezes de forma hipócrita ou cínica (“quem quiser que segure suas filhas” ou “ela queria” ou “ela era safada”, etc). É irresponsabilidade porque o agressor não pensa nas conseqüências deletérias daquele ato para o outro, mas apenas em seu prazer egoísta, no seu gozo estéril e perverso. Não pensa nunca no sofrimento que pode causar a uma menina porque... no fundo... ele odeia as meninas, e seu prazer é mais da ordem da destruição do objeto de desejo, o que indica sérios problemas na relação com o sexo oposto, ou “baixa masculinidade”. Porque é baixa a masculinidade, são imaturas as formas de gozo sexual, e são precárias as formas de responsabilidade moral, o alvo sexual vai do “qualquer uma”, do próprio harém ou do vizinho, para uma que guardaria certa "pureza", certa "inocênia", que se quer, justamente, macular, colocar uma nódoa, uma marca, ou uma "apropriação". Porque existe uma diferença muito grande em fantasiar e fazer. Se a fantasia indica fixações neuróticas, o fazer pressupõe distúrbio de caráter, ou psicopatia (já que agora está na moda). Como os distúrbios de caráter, ao contrário do que o “psiquiatra” da novela das oito reitera seguidamente, não são inatos, mas adquiridos - ninguém nasce psicopata, mas torna-se um (ainda que precocemente se vá delineando a personalidade neste sentido) - compreender estas dinâmicas sociais que facilitam o molde destas estruturas de personalidade é crucial para sociedades que queiram, realmente (não apenas no nível do discurso politicamente correto), combater esse incêndio insidioso, recorrente, devastador que atinge as meninas da nossa terra. Por fim, é ainda mais ridículo, para não dizer triste, se vangloriar de “pegar” uma menor de idade como se fosse uma façanha, algo que possa colocar um homem numa situação de vantagem, respeito, valorização, perante seus “coleguinhas”. Seja como for, ficar calado é o mesmo que aceitar esse tipo de coisa, o que não é possível, pois o melhor tratamento, no plano coletivo, para a psicopatia é ainda a repressão social. E este é o meu motivo de trazer à baila tão incômodo, mas necessário assunto. Isto é real, acontece a todo momento e conta com as mais absurdas complicidades. Se sexo é coisa boa e natural, sua prática violenta deve ser tratada, a meu ver, com uma política de intolerância zero (com o agressor), muita discussão e des-obscurecimento. Pais, professores e profissionais de saúde não devem temer tratar esses temas, mas sim criar espaços, onde eles possam emergir, sem culpas, para o plano consciente, dando possibilidades para que se estabeleçam as responsabilidades de cada um no combate a esta cultura alimentadora das várias formas de dominação e opressão, entre as quais se inclui a de gênero, e cujo produto mais ignóbil é o abuso de menor - a pedofilia.

sábado, 22 de agosto de 2009

A colher

Quando vemos pela primeira vez uma colher,
ela já nos é,
há muito,
familiar...
Ela nos penetrou boca a dentro
dura, metálica,
a trincar nos dentes.
Ela passeou nas mãos
sujas do gosto
e da saciedade.
Ela saltou no chão,
igualmente duro,
em cambalhotas...
Quando o observador se vê diante de uma colher, ele apenas a re-conhece com o intelecto, aquilo que já foi
saber dos sentidos.
Antes eram, ele e a coisa - das Ding,
um só impulso e movimento - der Trieb.
Agora ela o desdenha, e o desafia, em sua indiferente diferença.
Em sua incerteza: é ou não é?
Mas ele quer que seja.
Ele, no seu nômade desejo,
ainda sim, quer... o retorno
da velha e rebelde colher.

domingo, 16 de agosto de 2009

Cidades

Corredores de ventos
a recolher vestígios
de gentes

Cheiros e restos
a espalhar sentidos
diversos

Cores e pedaços
a brilhar despidos
de mentes

Cidades sãs
Cidades sim
Cidades sem ... solução
Cidades sem ... saudade
Vans cidades

sábado, 15 de agosto de 2009

Domingo, pé de cachimbo...

Ar morno que chega tão de leve beijando a fronte. Ainda bem que não mandei tirá-la, aquela árvore daninha, feia, que só de grande começou a dar umas frutinhas vermelhas atraindo os pássaros mais diferentes, desde aquele “quepenininho”, como diria Dani-mirim, gordinho e amarronzado, até o cinza mais grandinho de bico fino, e os grandões mascarados de papo amarelo. Já reparou como os passarinhos são rápidos? Não param quietos. A vida deles é veloz. Da rede os observo a pouco mais de um braço estendido, bicando a fruta ainda verde que não desgruda. Assim vão eles, testando a natureza. Tenho vontade de ouvir música, mas sou vencida pela delícia dos sons de tarde da minha janela. Espero já há algum tempo ver repetir-se aquele chiado típico de fazenda, lembrando vagamente o canto da cigarra, que me faz vagar na memória dos meus nove anos. Por que me sinto entranhada nesse período dos primeiros meses que cheguei a Dias D’Ávila? Período da casa alugada em frente ao trilho do trem? Da menina que morava do outro lado e tinha uma boneca de papelão com imã, onde se podiam grudar roupinhas? Do passeio na carroça puxada a trator nos levando até Amado Bahia, onde ainda descansava, semi-coberto pelo matagal, o antigo Matadouro, restos mortais da enorme fazenda que um dia havia sido do meu bisavô, e que entrava, lenta e justamente, na posse dos habitantes da terra? Restos de uma riqueza devoluta (Mata d’ouro). Talvez ficasse eu-menina, impressionada com a história, contada pelos garotos locais, da grande jibóia de mais 10 metros que habitava as ruínas. Foi nesse mesmo passeio que vi de perto, pela primeira vez, uma roseira. Uma roseira num jardim cimentado. Tão estranho, este jardim, quanto um certo silêncio, ou clima, que impregnou minha alma desde então. Um silêncio que vale ouro e mata o tempo. Sintetiza o ser e ente marginal que sou, a fugir das cobranças, das prisões, da serpente, que engole gente e aprisiona os dias nas entranhas. Eu, velha jibóia desassombrada, sigo o estalido das folhas secas enfeitiçada pelos gritinhos assanhados dos passarinhos. Estes sons me chamam, a menina e as rosas pálidas me chamam, mas eu só quero marejar calma na minha rede de sonhos... fugir de mim. Delicioso Domingo.

Cacete

Objeto de madeira utilizado como arma.
Com o acréscimo da sílaba "te" designa objeto similar para uso específico da polícia civil ou militar no ataque/defesa contra a população civil insubordinada.
Deu origem à expressão "baixar o cacete", que significa bater, falar mal, brigar.
Na Bahia é pão de sal longo, também chamado "vara", "bisnaga".
Mais popular são os "pães cacetinhos" consumidos com manteiga, queijo derretido, tomate e alface...
Adjetivo sinônimo de muito, bom demais, coisa boa, como na frase “Bom pra cacete”. Ou "Do cacete".
Adjetivo sinônimo de “coisa nenhuma”, “uma ova”, “de jeito nenhum”, como na frase “Bom o cacete”.
Adjetivo sinônimo de gente chata, que nem eu, com falta do que fazer...

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Vencedores e Perdidos

Porque estamos sujeitos ao desequilíbrio do mundo? Desequilíbrio equilibrado. Falo dos sucessos e dos fracassos que alguns acumulam mais que outros, em proporções, amplitudes, as mais variadas. Procuro um consolo na idéia de que se só houvessem sucessos na minha vida me tornaria uma pessoa prepotente e arrogante. Ainda bem que existem os fracassos para baixar a bola da gente. Então hoje foi um daqueles dias de fracasso doído, quando as dificuldades de se trabalhar em equipe, de depender de outros, de ter que coordenar te desafiam para além dos limites. Pois tudo o que se quer e se fez a vida inteira foi funcionar em cima dos pedidos dos outros. Preciso disso, tome aqui. Você aperfeiçoa o seu peixe, engorda, ensina truques, doura a pílula, mas ela continua valendo o que o mercado dá. Aí você muda de ramo. E tem que penar pra aprender as novas regras, os macetes. E tem que aprender a avaliar outros. Julgar, segundo objetivos que nem sempre são seus. Então eu vi os 5 garotos saírem depois de 10 dias em que o sonho foi se aproximando, devagar, até os tocar. Você comanda uma guerra de uns contra outros. Uma corrida de obstáculos: preenchimentos on-line, contatos, exigências mis, roda, "mas é assim, mas não é assim". E tudo termina na beira da praia. Os meninos se vão desolados, sem suas bolsinhas de pesquisa. São estudantes, alguns de baixa renda, ou quase isso, que deram um pouco mais que duro pra entrar na faculdade. Ótimos alunos. Você alimentou o sonho e não pôde realizar. Você viu 5 meninos que deveria cuidar se irem perdidos na sua desolação. Quase tão perdidos quanto você mesma. E seu eu fracassado se solidariza ainda mais com eles. Seu eu anti-fracasso, anti-classificações, pacífico e amante da diferença, da tolerância, se rebela contra qualquer forma de racionalização idiota que se cala perante uma verdade única, que é a sua cumplicidade com o desequilíbrio injusto do mundo. E você se (a) sujeita ainda assim.

Você, poesia

Se o amor é dor
És a morfina
Entrando doce
Na minha viciada veia...

Se o amor é peso
És a pluma
A pairar soberba
Acima de intrincada teia...

Se o amor é dúvida
És a certeza vadia
Alegre quimera
Que me quer... poesia.