sábado, 9 de julho de 2011

Ao bode com louvor

Descobri, numa das minhas caminhadas matinais do sábado, que a palavra “tragédia”, enquanto encenação teatral com final infeliz, gênero consagrado por Ésquilo e Sófocles, tem origem no grego “tragodia” (τραγωδια), que significa “canto do bode”. Na Grécia antiga, cantos eram entoados nas celebrações a Baco, enquanto se imolava um bode1. Aliás, não é à toa que os sátiros eram representados meio bode, meio homem, sempre com sua flauta a sussurrar mistérios no vento. Essa vinculação do trago (τραγος)s, ou bode, aos cerimoniais catárticos do rei do vinho me lembrou de um termo usado pelos surfistas na década de 70/80, que não sei mais se está em uso: ficar de bode. Relativo à ressaca pós consumo de maconha, ficar de bode, ou bodeado, era uma gíria corrente que logo se ampliou em sentido para designar um estado de letargia meio enjoada. Aparentemente este uso da palavra bode se perdeu, ou se mantém sem que eu saiba, em círculos restritos. O fato é que a juventude atual desconhece esse termo, e eu me pergunto se tomar um “trago” (bode) também não vem daí. Seja como for, a plasticidade da língua é algo de encantador, quer seja ou não, a associação do bode com o álcool, demais drogas, e os estados dramáticos que se seguem ao seu uso, válida como hipótese etimológica da língua portuguesa. Em Feira de Santana - BA, por exemplo, o Cantinho do Bode se apresenta como um dos lugares preferidos de encontro acadêmico para confraternizações de toda a natureza, mostrando talvez uma vinculação do bode com rituais de iniciação, fraternidade e congraçamento muito mais arcaicos do que possamos imaginar...

1.       Comentário de Edson Bini, tradutor de “As Leis” de Platão (658c) na Edição da Edipro de 2010.

sábado, 31 de julho de 2010

Experimentos heidegerianos de sentir

Meses de nada e eis um ovo.
Toda forma de conhecer é um sentir. A percepção aos estímulos se manifesta através de um sentir da mesma forma como a percepção da reação nossa aos estímulos, o que se chama senti-mento. O sentimento básico diante do mundo é a indiferença. De início existe apenas o ente absoluto que é presença e plenitude. Mas, de repente, uma outra presença – ente se impõe. Esta presença é a dor. Ela muda a situação e impõe ao ser que era antes plenitude absoluta a queda no desespero. O ente age cegamente. Excita-se de todas as formas, e de pronto, tudo cessa. De novo a paz. Esse ciclo se instala de tal forma que a memória já “espera” o des-equilíbrio que logo vai vir. Uma coisa que se inter-põe entre aquele estado inicial pleno e o estado de agora, criando uma diferença. Entre a plenitude e a dor existe alguma coisa. Que coisa é essa? Existe uma terceira coisa: um enigma. A terceira coisa é um enigma. Agora sabemos ser esta coisa uma distância, uma dimensão que separa um ente de outro, que se interpõe entre os entes, que não é nem um nem outro, e que chamamos vazio. O vazio é o terceiro ente. Mas o primeiro ente, que era plenitude, ainda não sabia disso antes do ciclo se iniciar. Só existia para ele o passado (bem-estar) e o presente (dor). Quando a dor se instala ela impera absoluta. Nada mais existe, nem o passado. A dor é um presente absoluto. Apenas quando cessa esse estado, e se retorna a um estado semelhante ao primeiro, é que este primeiro, enquanto oposto ao segundo, será percebido enquanto tal. A questão de Heideger é que o nada é a origem da negação e não o contrário. Mas, o fato do nada estar “na” origem não significa que ele seja “a” origem. Que a negação tenha vindo dele. Não. A origem do "não" está no próprio ente que se desdobra em ausência re-presentada. Será mesmo?

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Anti-Cristo...

Advertência inicial: quem não assistiu ainda, melhor não ler esta crítica.
Fui convidada para uma sessão de discussão do filme de Lars von Trier em cartaz no cine UFBA. Fomos nós três, duas Christinas e uma Cristiana (apelidas por mim de "as crises") assistir ao Anti-Crist... Só isso já daria o que falar... Resolvi preparar por escrito minha percepção e interpretação da polêmica película. Primeiro de tudo tem a fotografia, lindíssima. Embora os recursos não tenham em si nada de novo, a combinação de slowmotion, preto e branco com technicolor, imagens humanas embutidas em quadros de paisagens da natureza, sonoplastia de terror (lela e outros detalhes, como a mata, lembra a Bruxa de Blair) e música clássica... enfim, a mistura de hiperrealismo (cenas de nú) com o onirismo, tudo isso, torna a obra instigante e misteriosa pois, como diz uma das Crises: "produz muita informação". Como não desejo me alongar muito na questão que desejo postar, vou direto ao ponto que, talvez, não seja tão óbvio para a maioria. Pois bem, por se tratar de uma obra artística (ou com pretensão de) e não de mera peça comercial, convém tratá-la como produção inconsciente. O desejo nestas circunstâncias fica mais fácil de ser percebido, como na leitura das frases longas e rebuscadas, pegando-se um atalho. Ou seja, o desejo se realiza no final. E qual é o final? O homem mata a mulher. Não uma mulher qualquer, mas a mãe malvada, louca, insaciável e que desatenta de quem deveria ser seu maior amor - o filho, calça os sapatos erradamente e lhe provoca uma "deformidade". Culpada, sempre culpada, o autor-diretor deve justificar de todas as formas a consumação do ato final e rechear o filme-sonho de pistas falsas em que o observador-testemunha se perde para nunca desconfiar do seu intento. Se existe uma verdade, ela se encontra no alto da pirâmide do medo, que é medo de si mesmo, e do ato do genocídio, que seria um matricídio, em verdade. Para não matar, o deprimido se destrói, e esse processo de dor, medo e desespero, de fato, nunca vem só... mas não precisa terminar em atos fisicamente violentos. Ao dividir conosco a beleza e a feiura do seu gozo-sofrimento, o autor se expõe sem o risco de ser julgado (ou de ser julgado pelo verdadeiro "crime")... e de quebra ainda ganha muito dinheiro e fama. A arte permite esse milagre. E a indústria cinematográfica permite outro milagre... o da multiplicação dos pães (para o padeiro, é claro).

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Pedofilia é uma praga social

É um crime que tem resistido às mais variadas formas de repressão. Porque isso? Vamos ilustrar com um simples caso. Eu esperava ser atendida em certa lanchonete e ouvi a frase, em tom jocoso, de um atendente para outro, sobre um terceiro também presente na cena: “Ele pegou uma menina de 12 anos...” Como a situação era inequívoca e eu me indignava, falei em voz alta: “Pedofilia é crime”. Então um dos rapazes, ainda em tom de brincadeira, retorquiu: “Crime é não pegar...”.
Não falarei da minha reação de quase violência verbal, mas das reflexões que este caso me suscitou e que desejo passar adiante. O abuso sexual de menores é uma praga que ronda os PSFs e demais serviços de saúde de tal forma que os conselhos tutelares não têm dado conta. Isto sem falar nos casos encobertos ou socialmente aceitos de forma “naturalizada” como acontece principalmente com relação ao abuso de meninas muito pobres, que exibam comportamento sedutor, ou não, e (ou) gozem mais liberdade, consentida ou não pelos pais. O que se esconde por detrás da pedofilia, além dos problemas psíquicos pouco abordados como a impotência, a imaturidade sexual, o machismo e a drogadição? Ou, mais precisamente, o que se esconde por trás desta tolerância sexual demonstrada pela nossa comunidade masculina (e também feminina)? Uma grande covardia e baixa masculinidade, com certeza. Mas também uma coisificação do outro humano. Covardia porque se busca seduzir, assediar, alguém que não tem capacidade de julgar o outro como parceiro sexual, não tem capacidade para escolher, e que é irresponsável perante a lei e a sociedade (em menor o assédio sexual é sempre considerado violento e igual a estupro, não importando a reação da criança, se houve consentimento ou não). É covardia justificada na maioria das vezes de forma hipócrita ou cínica (“quem quiser que segure suas filhas” ou “ela queria” ou “ela era safada”, etc). É irresponsabilidade porque o agressor não pensa nas conseqüências deletérias daquele ato para o outro, mas apenas em seu prazer egoísta, no seu gozo estéril e perverso. Não pensa nunca no sofrimento que pode causar a uma menina porque... no fundo... ele odeia as meninas, e seu prazer é mais da ordem da destruição do objeto de desejo, o que indica sérios problemas na relação com o sexo oposto, ou “baixa masculinidade”. Porque é baixa a masculinidade, são imaturas as formas de gozo sexual, e são precárias as formas de responsabilidade moral, o alvo sexual vai do “qualquer uma”, do próprio harém ou do vizinho, para uma que guardaria certa "pureza", certa "inocênia", que se quer, justamente, macular, colocar uma nódoa, uma marca, ou uma "apropriação". Porque existe uma diferença muito grande em fantasiar e fazer. Se a fantasia indica fixações neuróticas, o fazer pressupõe distúrbio de caráter, ou psicopatia (já que agora está na moda). Como os distúrbios de caráter, ao contrário do que o “psiquiatra” da novela das oito reitera seguidamente, não são inatos, mas adquiridos - ninguém nasce psicopata, mas torna-se um (ainda que precocemente se vá delineando a personalidade neste sentido) - compreender estas dinâmicas sociais que facilitam o molde destas estruturas de personalidade é crucial para sociedades que queiram, realmente (não apenas no nível do discurso politicamente correto), combater esse incêndio insidioso, recorrente, devastador que atinge as meninas da nossa terra. Por fim, é ainda mais ridículo, para não dizer triste, se vangloriar de “pegar” uma menor de idade como se fosse uma façanha, algo que possa colocar um homem numa situação de vantagem, respeito, valorização, perante seus “coleguinhas”. Seja como for, ficar calado é o mesmo que aceitar esse tipo de coisa, o que não é possível, pois o melhor tratamento, no plano coletivo, para a psicopatia é ainda a repressão social. E este é o meu motivo de trazer à baila tão incômodo, mas necessário assunto. Isto é real, acontece a todo momento e conta com as mais absurdas complicidades. Se sexo é coisa boa e natural, sua prática violenta deve ser tratada, a meu ver, com uma política de intolerância zero (com o agressor), muita discussão e des-obscurecimento. Pais, professores e profissionais de saúde não devem temer tratar esses temas, mas sim criar espaços, onde eles possam emergir, sem culpas, para o plano consciente, dando possibilidades para que se estabeleçam as responsabilidades de cada um no combate a esta cultura alimentadora das várias formas de dominação e opressão, entre as quais se inclui a de gênero, e cujo produto mais ignóbil é o abuso de menor - a pedofilia.

sábado, 22 de agosto de 2009

A colher

Quando vemos pela primeira vez uma colher,
ela já nos é,
há muito,
familiar...
Ela nos penetrou boca a dentro
dura, metálica,
a trincar nos dentes.
Ela passeou nas mãos
sujas do gosto
e da saciedade.
Ela saltou no chão,
igualmente duro,
em cambalhotas...
Quando o observador se vê diante de uma colher, ele apenas a re-conhece com o intelecto, aquilo que já foi
saber dos sentidos.
Antes eram, ele e a coisa - das Ding,
um só impulso e movimento - der Trieb.
Agora ela o desdenha, e o desafia, em sua indiferente diferença.
Em sua incerteza: é ou não é?
Mas ele quer que seja.
Ele, no seu nômade desejo,
ainda sim, quer... o retorno
da velha e rebelde colher.

domingo, 16 de agosto de 2009

Cidades

Corredores de ventos
a recolher vestígios
de gentes

Cheiros e restos
a espalhar sentidos
diversos

Cores e pedaços
a brilhar despidos
de mentes

Cidades sãs
Cidades sim
Cidades sem ... solução
Cidades sem ... saudade
Vans cidades

sábado, 15 de agosto de 2009

Domingo, pé de cachimbo...

Ar morno que chega tão de leve beijando a fronte. Ainda bem que não mandei tirá-la, aquela árvore daninha, feia, que só de grande começou a dar umas frutinhas vermelhas atraindo os pássaros mais diferentes, desde aquele “quepenininho”, como diria Dani-mirim, gordinho e amarronzado, até o cinza mais grandinho de bico fino, e os grandões mascarados de papo amarelo. Já reparou como os passarinhos são rápidos? Não param quietos. A vida deles é veloz. Da rede os observo a pouco mais de um braço estendido, bicando a fruta ainda verde que não desgruda. Assim vão eles, testando a natureza. Tenho vontade de ouvir música, mas sou vencida pela delícia dos sons de tarde da minha janela. Espero já há algum tempo ver repetir-se aquele chiado típico de fazenda, lembrando vagamente o canto da cigarra, que me faz vagar na memória dos meus nove anos. Por que me sinto entranhada nesse período dos primeiros meses que cheguei a Dias D’Ávila? Período da casa alugada em frente ao trilho do trem? Da menina que morava do outro lado e tinha uma boneca de papelão com imã, onde se podiam grudar roupinhas? Do passeio na carroça puxada a trator nos levando até Amado Bahia, onde ainda descansava, semi-coberto pelo matagal, o antigo Matadouro, restos mortais da enorme fazenda que um dia havia sido do meu bisavô, e que entrava, lenta e justamente, na posse dos habitantes da terra? Restos de uma riqueza devoluta (Mata d’ouro). Talvez ficasse eu-menina, impressionada com a história, contada pelos garotos locais, da grande jibóia de mais 10 metros que habitava as ruínas. Foi nesse mesmo passeio que vi de perto, pela primeira vez, uma roseira. Uma roseira num jardim cimentado. Tão estranho, este jardim, quanto um certo silêncio, ou clima, que impregnou minha alma desde então. Um silêncio que vale ouro e mata o tempo. Sintetiza o ser e ente marginal que sou, a fugir das cobranças, das prisões, da serpente, que engole gente e aprisiona os dias nas entranhas. Eu, velha jibóia desassombrada, sigo o estalido das folhas secas enfeitiçada pelos gritinhos assanhados dos passarinhos. Estes sons me chamam, a menina e as rosas pálidas me chamam, mas eu só quero marejar calma na minha rede de sonhos... fugir de mim. Delicioso Domingo.